O MEDO DO AMOR PRÓPRIO

A maioria dos adultos trabalham duro para evitar ser rotulado de egocêntricos ou a palavra temida recentemente – narcisista. É compreensível. O movimento da auto-estima nascido na década 60, sem dúvida, deu origem à noção de que nossa auto-estima só pode ser medida pelo quanto somos mais especiais do que aqueles que nos rodeiam. E não é um bom lugar para se estar – para nós ou, obviamente, para os que estão ao nosso redor.

Para os cristãos, o medo do amor próprio é alimentado pelas advertências bíblicas adicionais de colocar os outros à frente de nós mesmos. Romanos 12:10 nos instrui a “ser devotados um ao outro em amor fraterno; dar preferência um ao outro em honra. ”

Na comunidade da igreja, estamos sempre à procura de fazer exatamente isso – estar servindo. Frequentemente ouvimos sermões sobre servir, perseverança, sacrifício, amar o pecador, amar o próximo, amar o inimigo. Mas raramente falamos sobre a ideia de amar a nós mesmos. Vemos qualquer exemplo de amor próprio como suspeito, correndo o risco de nos colocar na ladeira temida e escorregadia, levando à auto absorção ímpia.
Mas então o que fazemos com a palavra ordenada por Jesus a respeito do amor próprio?

Em Marcos 12:31 , Jesus nos instrui a “amar o seu próximo como a si mesmo”. Isso pressupõe algum nível de amor próprio. E não é apenas um caso único. Essa frase de amar os outros como a nós mesmos ocorre em outras partes da Bíblia. (Ver Lev. 19:18 ; Lev. 19:34 ;Tiago 2: 8. ) Jesus usou o tema amor próprio como ponto de partida para nos ajudar a saber como deveria ser a compaixão pelos outros.

Alguns cristãos argumentam que Cristo não estava encorajando o amor próprio, mas apenas reconhecendo sua presença onipresente. Eles sustentam que Ele simplesmente reconheceu que era um dado, mesmo que inadequado, e o usou como base para nos ensinar como amar os outros. Possivelmente. Mas se esse amor próprio era uma coisa inadequada, por que o Senhor o usaria como padrão para mostrar como devemos tratar os outros?

E se Ele quisesse condená-lo, certamente poderia ter feito. O pecado também é onipresente, e Jesus não teve problemas em condená-lo. Em vez disso, ele destacou algo que não é apenas natural em nós, mas, em sua forma correta, também saudável, e sugeriu que aplicássemos esse mesmo padrão a outros. O amor próprio e o sacrifício pessoal não são mutuamente exclusivos. De fato, podemos ver como o equilíbrio deve parecer, quando bem feito, simplesmente observando como o próprio Senhor viveu.

O MODELO DE JESUS


Quando pensamos em Jesus, normalmente pensamos em auto-sacrifício, e isso é compreensível. De fato, todo o valor em nossa fé é a ideia de que um sacrifício perfeito foi encontrado e, mais surpreendente, ele voluntariamente assumiu esse papel de sacrifício, tudo em nosso favor.

Perder isso é perder o cerne de nossas crenças. Mas também não devemos perder o fato de que Jesus também modelou o autocuidado pessoal. Embora ele soubesse claramente quando ficar e pregar, ou ficar e curar, ou ficar e ensinar, também temos exemplos de Jesus afastando-se da multidão e saindo para estar sozinho, para lamentar, para estar com os amigos.

Nós o encontramos permitindo que outros lhe sirvam uma refeição, permitindo que outros financiem Seu ministério, que lavem seus pés até com perfume. Nós até o encontramos indo a uma festa. Portanto, claramente, mesmo quando o objetivo principal de uma pessoa é o sacrifício, há um equilíbrio no qual o cuidado de si e o amor próprio fazem parte da dinâmica.

A GANGORRA DO AMOR PRÓPRIO

Nós, humanos, há muito demonstramos que podemos levar qualquer coisa, até uma coisa boa, a extremos e arruiná-la. Fazemos isso com comida, liberdade, sexo, etc. Praticamente qualquer coisa boa que Deus tenha nos dado, acabamos levando-a ao limite, transformando-a em algo irreconhecível e até grotesca.

O amor próprio não é diferente. No extremo da gangorra, vemos facilmente as pessoas que se absorvem a si mesmas, que se tornam egoístas, exigem, criticam, murmuram e negam, criando drama desnecessário aonde quer que vão. Ficam felizes em se vangloriar, são esses que dão um mau nome ao amor próprio.

Se Cristo quisesse condenar o amor próprio, certamente teria feito.
No outro extremo, porém, estão os auto-despreciadores, um grupo pelo qual lamentamos enquanto lutam para encontrar qualquer valor próprio. Aqui, o problema não é o excesso de amor próprio, porque eles realmente se odeiam, e isso geralmente surge em um comportamento muito autodestrutivo. As várias maneiras de se auto-prejudicar preenchem (e atualizam anualmente) os manuais de psiquiatria. Esses dois comportamentos extremos exigem intervenções extremas.

A GRANDE MUDANÇA

A maioria dos cristãos que conheço trabalha muito para colocar os outros acima de si. É um valor central no corpo da igreja. Mas com o que mais frequentemente parecemos lutar é como e quando cuidar de nós mesmos, o mesmo cuidado que damos facilmente às pessoas ao nosso redor.

Aqui está um exemplo. Um bom amigo e vizinho passou uma noite cansativa lidando com uma filha adolescente que ignorou o toque de recolher e voltou para casa às 6 horas da manhã. Esse mesmo vizinho saiu para trabalhar no dia seguinte, participou de uma reunião de grupo e, quando um ponto controverso veio à tona, ele criticou um colega de trabalho de uma maneira que ele nunca teria feito anteriormente. Se ele tivesse dormido bem na noite anterior, esse momento teria sido tratado de uma maneira completamente diferente. Mas, no final, a atitude lhe custou uma promoção.

O que você diria ao seu amigo? Provavelmente coisas como…

• Você é apenas um ser humano;
• Você estava exausto;
• Todo mundo tem momentos de cansaço;
• Um erro não o define que você é;
• Todos nós temos momentos ruins.

Em outras palavras, você o encoraja a abraçar sua humanidade, a se apossar do ombro amigo que podemos oferecer. De alguma forma, apenas ouvir que outro ser humano gosta de nós, apesar de nossas gafes, é reconfortante; é bálsamo para uma alma ferida.

Mas quando somos nós nos avaliando, perceberemos que estragamos tudo, e geralmente não estamos dispostos a fornecer a mesma graça para nós mesmos. Nosso pensamento pode ser mais parecido com…

• Você deveria ter mantido a boca fechada;
• O que você estava pensando?
• O que as pessoas vão pensar?
• Você perdeu sua chance;
• Você simplesmente não poderia dizer aquelas palavras;
• Isso é irrecuperável;
• Isso é imperdoável.

Se você estivesse aconselhando seu vizinho, você estaria disposto a levar graça e derramá-la sobre seu amigo ferido. Mas de alguma forma você não fornece isso para si mesmo. Quando se trata de amor próprio, a graça é subitamente escassa.

Como cristãos, muitos de nós não precisam aprender a lição de como amar o próximo como a si mesmos; precisamos aprender a amar a nós mesmos como amamos o próximo.

A VELHA NOVA IDEIA


Há algo mais profundo em ação aqui. Quando somos duros consigo mesmos, normalmente usamos um padrão hiper-rígido que nunca aplicaríamos a outros.

Pode surpreendê-lo saber que você carrega uma mensagem oculta um tanto arrogante: espero mais de mim do que dos outros. Esse é um exercício que realmente serve para nos distanciar dos outros. Os outros recebem sua graça, mas você não tem direito dela. Assim você mesmo se afasta das pessoas a sua volta.

Mas quando derramamos palavras cheias de graça sobre nossas próprias feridas, tocamos em nossa humanidade comum, em nossa mesmice, em nosso parentesco de imperfeição. Admitimos que cometemos erros. Essa ação, em vez de nos distanciar dos outros, na verdade nos conecta, nos cura, remove o ácido da autocondenação, nos deixa cair na piscina fria da humanidade e nos permite seguir em frente.

Não interprete mal isso como uma maneira de evitar assumir responsabilidades. Jamais devemos pular a etapa de admitir nossos erros, de fazer o que pudermos para corrigir nosso curso e curar os danos. De nos arrependermos. O ponto central da gangorra é onde o arrependimento e o amor próprio encontram o equilíbrio perfeito. De fato, o ato do arrependimento para limpar a alma é uma das coisas mais importantes que podemos fazer.

Mas depois disso – depois daquele momento de genuína contrição – o que vem a seguir? A graça!

Eu acho que esse novo e moderno conceito de amor próprio está, na verdade, apenas tocando em algo antigo, antigo e até glorioso e curador – algo para o qual Deus sempre nos chamou.

A Graça.

Não apenas para os outros, mas para nós mesmos.

Em Cristo!

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